poesia

eu sinto muita coisa todo dia quando me olho no espelho.

é o quadril que não tá de acordo, é a gordurinha que não foi embora ontem, é a outra que surgiu de repente, é a perna que não se enquadra no padrão exigido.

é a celulite que aparece sem eu pedir, é a estria que tenho desde sempre e que, pra mim, sempre vai tá ali. é a autoaceitação que não vem, é o desejo de mudar, é o querer evitar tudo isso porque eu posso evitar tudo isso. é o corpo que é meu, só meu, e tá tudo bem em ser.

é a crise que vem de vez em quando, é a crise que vem de vez em sempre, é o choro que arde ao lembrar de tudo, é o desespero que bate ao perceber que a sociedade impõe coisas inaceitáveis pra mente, pra alma, pra vida. é a autoestima que se abaixa ao olhar pro outro, é a autoestima que se levanta ao olhar pra sua vontade de fazer e ser diferente. é o querer e o poder, a força e a luta, a dor e a superação. é ir de acordo com o julgamento alheio, é deixar o julgamento alheio de lado pra seguir seus instintos. é se instigar todos os dias a parar de se cobrar tanto, é cobrar da vida um momento certo pra se libertar de tudo isso. é se libertar, enfim, ao entender que o que você é depende e só cabe a você.

é o desejo de mudança que, às vezes, carrega a nossa força, é a nossa força que, às vezes, falha ao se deparar com as comparações. é cada comparação que te deixa triste, é ficar triste por uma comparação que não cabe a ninguém fazer. é fazer de tudo pra ir além sem chorar, é chorar pra eliminar tudo o que te aprisiona, tudo o que te tira de si. é saber que há dias em que você vai querer morar em outro lugar, mas que, em outros, você vai perceber que o seu corpo é a sua casa perfeita. você, então, é arte em construção.

eu sinto muita coisa todo dia quando me olho no espelho. e, quando isso acontece, eu tento me acalmar no que me faz bem. pensar em coisas bonitas, imaginar um campo de girassol, olhar pro sol e entender: o que existe em mim é bonito demais pra eu esconder. meu corpo, por mais que tentem me fazer esquecer, é meu, e só eu posso dizer.

desconstruir é partir em liberdade. me aceitar, daí, é me abraçar em poesia.

amor,
Caca

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